Artigos Pessoais, SIPAT

Da vida ao Acidente e a Transformação do Cadeirante em Palestrante

Denardo em cadeira de rodas, contando sua história de superação após um acidente e sua missão de promover inclusão e prevenção.
Tempo de Leitura Estimado: 6 minutos

 

Minha vida, a história real de Denardo, do acidente à missão de transformar vidas.

Eu tinha 22 anos, planos, amigos, trabalho e uma vida que parecia não caber dentro de um único dia. Gostava de dirigir, de esportes radicais, de sair, de trabalhar e de aproveitar a liberdade de fazer minhas próprias escolhas. Eu não imaginava que, em um instante, precisaria reaprender a viver — e que a experiência mais dolorosa da minha vida acabaria se transformando em uma missão.

Sou Ronaldo Denardo. autor do livro Andando sem Poder Andar, autobiografia publicada pela IBRASA. Não escrevi essas páginas para fingir que a dor não existiu, nem para apresentar uma história de superação perfeita, sem medo ou revolta. Escrevi para contar, com sinceridade, como a vida pode mudar de repente e como, mesmo quando não conseguimos recuperar o que perdemos, ainda podemos construir novos caminhos.

Antes do acidente: uma vida em movimento

Na época, eu trabalhava como técnico eletrônico, atendia clientes e passava boa parte do dia ao volante. Tinha amigos, compromissos, paqueras, planos e aquela pressa tão comum de quem acredita que sempre haverá tempo para fazer tudo depois. Gostava de carros e de emoções fortes. A rotina era intensa: trabalho durante o dia, encontros e diversão quando sobrava tempo.

Olhando para trás, reconheço também a imprudência. No trânsito, a pressa e a confiança excessiva podem fazer uma pessoa acreditar que controla situações que, na verdade, podem escapar de suas mãos. Eu conhecia a sensação de acelerar e seguir em frente. Ainda não compreendia, como viria a compreender da maneira mais dura, o preço que um acidente pode cobrar.

O acidente: o instante que dividiu minha vida em duas

Em agosto de 1997, durante uma viagem que começou como tantas outras, minha história tomou um rumo inesperado. Eu estava em um carro que me pertencia, mas não era eu quem dirigia naquele momento. Luciana estava ao volante. O acidente aconteceu e, de uma hora para outra, tudo o que parecia garantido passou a ser incerto.

O impacto não deixou apenas um veículo danificado ou uma viagem interrompida. A lesão atingiu minha coluna cervical e provocou uma lesão medular grave. Eu tinha apenas 22 anos. A independência, os movimentos e a espontaneidade com que eu vivia deixaram de ser coisas automáticas. O que antes eu fazia sem pensar — levantar, caminhar, alcançar um objeto, sair de casa — passou a depender de ajuda, adaptação e esforço.

O livro registra também a confusão e a angústia dos primeiros dias no hospital: a espera, as dúvidas, a dificuldade de compreender o que estava acontecendo com meu corpo e a necessidade de buscar respostas. Eu queria saber o que havia acontecido comigo e o que poderia ser feito. O tempo, que antes parecia sempre curto, passou a se arrastar entre exames, cuidados e horários de visita.

Eu não escolhi que minha vida mudasse. Mas, aos poucos, precisei descobrir o que ainda poderia fazer com a vida que tinha diante de mim.

O hospital, o medo e o valor de quem permanece ao nosso lado

Uma das partes mais duras dessa experiência foi encarar a incerteza. Meu corpo não respondia como antes e eu não tinha como simplesmente me levantar e resolver as coisas. No hospital, os minutos pareciam intermináveis. O horário das visitas era esperado com ansiedade; quando a visita terminava, a solidão voltava a ocupar o quarto.

Minha mãe foi presença constante. Mesmo precisando conciliar o trabalho e as próprias responsabilidades, fazia o possível para estar comigo. Seu esforço me dava conforto e, ao mesmo tempo, doía, porque eu percebia o quanto ela também estava sofrendo. O acidente não tinha atingido apenas meu corpo: havia mudado a rotina e o coração de toda a família.

Também precisei lidar com as perguntas que ninguém conseguia responder imediatamente. A recuperação seria longa? Quanto movimento eu conseguiria recuperar? Como seria minha vida fora do hospital? Eu queria respostas definitivas, mas a reabilitação exigia paciência — justamente quando eu menos tinha paciência para esperar.

Reaprender a viver: reabilitação, esforço e adaptação

Depois vieram a fisioterapia, os tratamentos, os exercícios e a adaptação a uma realidade completamente diferente. Minha lesão medular, na região cervical C5-C6, trouxe limitações motoras e sensitivas importantes. O progresso não acontecia na velocidade que eu desejava. Cada movimento conquistado exigia trabalho; cada pequeno avanço podia alimentar uma esperança enorme, mas também precisava ser compreendido com os pés no chão.

Houve frustração, impaciência, tristeza e revolta. Eu queria voltar à vida que conhecia. Queria recuperar minha autonomia e não ser tratado como se tivesse deixado de ser adulto por precisar de ajuda. Ao mesmo tempo, fui descobrindo que adaptação não significa desistência. Significa encontrar maneiras possíveis de fazer, participar, decidir e continuar.

Aprendi, na prática, que cada pessoa encontra suas próprias estratégias. A reabilitação não se resume aos exercícios: envolve recuperar confiança, experimentar soluções, aceitar apoio sem abrir mão da própria voz e insistir para que a deficiência não apague a identidade de ninguém.

A tecnologia, a escrita e o reencontro com minha capacidade

Uma das mudanças mais importantes foi perceber que eu ainda podia produzir, criar e me comunicar. Com adaptações, a tecnologia se tornou uma ponte para a independência. A escrita, que já fazia parte da minha maneira de me expressar, ganhou um novo significado: tornou-se uma forma de organizar as lembranças, dar nome aos sentimentos e contar ao mundo o que eu havia vivido.

Foi assim que nasceu Andando sem Poder Andar. Escrever minha autobiografia exigiu persistência e adaptação, mas também me permitiu olhar para a trajetória inteira — não apenas para o momento do acidente. Eu era mais do que o diagnóstico. Continuava sendo um homem com desejos, ideias, humor, ambições, contradições e vontade de fazer planos.

A cadeira de rodas passou a fazer parte da minha vida, mas não se tornou a definição completa de quem eu era. Minha autonomia não voltou a ser igual à de antes; ela precisou ser reconstruída de outras formas. Aprendi que independência não significa fazer tudo sozinho. Significa poder participar das decisões sobre a própria vida, ter oportunidades e contar com os recursos e o apoio necessários.

Da experiência pessoal à comunicação e às palestras

Minha trajetória profissional também encontrou novos caminhos. A comunicação, o jornalismo e o trabalho diante das câmeras me deram a oportunidade de contar histórias, conhecer pessoas e mostrar realidades que muitas vezes ficam invisíveis. Como repórter sobre rodas, vivi experiências que desafiaram as expectativas alheias sobre o que uma pessoa com deficiência pode fazer.

Com o tempo, descobri que podia levar essa experiência para dentro das empresas. Comecei a realizar palestras de conscientização, inclusão e integração da pessoa com deficiência no mercado de trabalho. Percebi que falar a partir da própria vivência pode abrir conversas importantes, questionar preconceitos e ajudar as pessoas a enxergarem além das aparências.

Minha história também passou a ter um papel na prevenção de acidentes. Quando compartilho o que aconteceu comigo, não quero apenas emocionar o público. Quero provocar reflexão sobre escolhas, responsabilidade, pressa, comportamento e segurança. Um acidente não é uma estatística distante quando entendemos que, por trás dele, existem pessoas, famílias, projetos e futuros que podem mudar para sempre.

É por isso que transformei parte da minha dor em trabalho de conscientização. Não porque o sofrimento tenha sido bom ou necessário, mas porque acredito que a experiência pode servir para evitar que outras pessoas passem por situações semelhantes e para construir ambientes mais inclusivos.

Superação não é uma linha reta

Seria fácil contar essa história como se um dia eu tivesse acordado decidido a ser forte e, a partir dali, tudo tivesse dado certo. Não foi assim. Superação não é um milagre instantâneo, nem uma obrigação de estar feliz o tempo todo. Há perdas que continuam doendo, limites que precisam ser respeitados e dias em que a tarefa mais importante é simplesmente seguir adiante.

Também não acredito que uma pessoa com deficiência precise provar seu valor sendo extraordinária. O direito de trabalhar, amar, circular, estudar, se divertir e participar da sociedade não deveria depender de uma história emocionante. A acessibilidade, o respeito e a inclusão não são favores: são parte de uma sociedade que reconhece a dignidade de todas as pessoas.

O que posso afirmar é que minha vida não terminou naquele acidente. Ela mudou profundamente. Precisei aprender outras maneiras de fazer as coisas, reconstruir projetos e encontrar novos sentidos para a minha experiência. Continuei trabalhando, criando, comunicando e compartilhando o que aprendi. A vida que veio depois não foi a vida que eu havia planejado — mas continuou sendo minha vida.

Por que conto minha história?

Conto porque a prevenção começa quando deixamos de acreditar que acidentes só acontecem com os outros. Conto porque a inclusão precisa sair do discurso e chegar às atitudes, aos espaços de trabalho e às relações cotidianas. E conto porque alguém que esteja atravessando uma mudança difícil talvez encontre, nestas palavras, não uma fórmula mágica, mas a lembrança de que ainda existem possibilidades a descobrir.

Minha autobiografia, Andando sem Poder Andar, registra a trajetória de um jovem que teve sua rotina interrompida por um acidente e precisou reconstruir a própria existência. Minha atuação como palestrante dá continuidade a essa história: levo a experiência para empresas, equipes e públicos que desejam refletir sobre superação, comportamento seguro, prevenção de acidentes e inclusão da pessoa com deficiência.

Transformei parte da dor em propósito. Hoje, uso minha voz e minha história para conscientizar, incluir e ajudar outras pessoas a enxergar o valor da vida.

Leve essa reflexão para sua empresa

Se sua empresa procura uma palestra humana, impactante e baseada em experiência real, conheça o trabalho de Denardo. Uma história de vida pode abrir espaço para conversas importantes sobre prevenção de acidentes, segurança no trabalho, inclusão e respeito às pessoas com deficiência.

Conheça as palestras de Denardo

Entre em contato pelo site para conversar sobre uma palestra para sua empresa, SIPAT ou ação de conscientização.


Sobre o livro: Andando sem Poder Andar, de Ronaldo Denardo, é uma autobiografia publicada pela IBRASA. Este artigo é uma apresentação editorial da trajetória narrada na obra, com texto adaptado para o blog.

 

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