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A Enfermeira Cadeirante Que Superou o Preconceito
Andrea Dalzell: a enfermeira cadeirante que enfrentou 76 rejeições!
Andrea Dalzell recebeu, ainda na infância, o diagnóstico de uma doença inflamatória da medula espinhal e transformou sua trajetória em uma luta pela inclusão de pessoas com deficiência. A enfermeira norte-americana conquistou espaço na linha de frente da saúde e passou a questionar os limites que a sociedade impõe a quem utiliza uma cadeira de rodas.
Imagine estudar, conquistar um diploma, obter a habilitação profissional e estar preparada para exercer uma profissão. Agora imagine ouvir que você não deveria sequer tentar, simplesmente porque utiliza uma cadeira de rodas.

Andrea Dalzell enfrentou exatamente essa barreira. Enfermeira e ativista dos direitos das pessoas com deficiência, ela ficou conhecida internacionalmente como The Seated Nurse, expressão que se traduz como “A Enfermeira Sentada”.
Sua história ganhou destaque não apenas pelas conquistas profissionais, mas também por expor uma contradição: uma sociedade que precisa de profissionais qualificados ainda pode fechar portas para quem não corresponde às suas expectativas tradicionais.
Uma infância marcada por desafios de saúde
Andrea Dalzell nasceu e cresceu no Brooklyn, em Nova York, nos Estados Unidos. Aos cinco anos, recebeu o diagnóstico de mielite transversa, uma condição inflamatória que afeta a medula espinhal e pode provocar dor, fraqueza muscular, alterações de sensibilidade e paralisia.
Durante a infância, Andrea alternou entre diferentes recursos de mobilidade:
- cadeira de rodas;
- andador;
- muletas.
Por volta dos 12 anos, ela passou a utilizar a cadeira de rodas em tempo integral.
Desde cedo, portanto, sua vida esteve ligada ao ambiente hospitalar, aos profissionais de saúde e aos desafios de conviver com uma deficiência.
Essa experiência também influenciou sua maneira de enxergar o cuidado. Andrea conheceu de perto a posição de quem recebe atendimento, enfrenta incertezas e depende de profissionais preparados não apenas para tratar uma condição clínica, mas também para enxergar a pessoa por trás do diagnóstico. Mais tarde, essa vivência ajudaria a definir o caminho que ela escolheria profissionalmente.
De paciente a profissional de enfermagem
Inicialmente, Andrea não tinha certeza de que se tornaria enfermeira. Durante a juventude, ela chegou a considerar a carreira jurídica e, posteriormente, a medicina.
A experiência acumulada em consultas, tratamentos e internações despertou seu interesse pela área da saúde. Entretanto, ao conhecer melhor a formação médica, ela começou a refletir sobre a importância de olhar para o paciente de maneira integral, considerando sua história, seus sentimentos e sua vida para além da doença. Nesse contexto, a enfermagem passou a representar uma possibilidade de colocar essa visão em prática.
Andrea estudou no College of Staten Island, instituição integrante da City University of New York (CUNY). Lá, construiu sua formação acadêmica na área da saúde, com estudos em biologia e neurociência e formação em enfermagem.
O objetivo era claro: atuar no cuidado direto de pacientes, especialmente em situações nas quais o acolhimento, o conhecimento técnico e a capacidade de compreender a experiência humana fazem diferença.
No entanto, conquistar a formação não garantiu que as portas do mercado de trabalho se abrissem.
Quando a cadeira de rodas passou a ser um obstáculo profissional
A trajetória de Andrea revela uma realidade enfrentada por muitas pessoas com deficiência: as barreiras não terminam necessariamente quando a pessoa conquista qualificação, experiência ou autonomia.
Questionamentos desde a formação
Durante a formação em enfermagem, Andrea enfrentou dúvidas sobre sua capacidade de exercer a profissão. Em entrevista posterior, relatou que ouviu, logo no início da experiência, que não poderia se tornar enfermeira porque utilizava cadeira de rodas. Mesmo depois de concluir os estudos e obter o registro profissional, o problema continuou.
76 entrevistas e nenhuma contratação clínica
Andrea participou de 76 entrevistas para vagas de enfermagem clínica e ouviu um não em todas elas, segundo relatos publicados por ela e por organizações da área de enfermagem. A dificuldade não era encontrar um emprego qualquer, pois ela queria trabalhar diretamente com pacientes, exercendo a profissão para a qual havia estudado.
Enquanto buscava uma oportunidade na assistência clínica, ela trabalhou em funções relacionadas a:
- saúde escolar;
- gestão de casos;
- coordenação de atividades de saúde.
Essas experiências permitiram que continuasse atuando na área. Ainda assim, não eliminavam a frustração de encontrar resistência justamente onde desejava demonstrar suas competências.
Dúvidas sobre capacidade e risco de infecção
Em entrevista à American Association of Critical-Care Nurses (AACN), Andrea relatou que empregadores e profissionais levantavam dúvidas sobre:
- sua capacidade de acompanhar a rotina hospitalar;
- a realização de determinados procedimentos;
- o atendimento às exigências do ambiente clínico.
Além disso, havia preocupações equivocadas de que a utilização de uma cadeira de rodas poderia aumentar o risco de infecção.
O problema central estava na maneira como as pessoas avaliavam suas capacidades. Em vez de começar pelas qualificações, pelas competências e pelas adaptações possíveis, parte delas parecia partir da deficiência para concluir o que Andrea seria ou não capaz de fazer.
A cadeira de rodas era visível. Andrea, porém, precisava provar repetidamente sua formação, seu conhecimento e sua experiência.
A pandemia de Covid-19 abriu uma porta
Uma vaga em meio à crise sanitária
Em 2020, a pandemia de Covid-19 provocou uma crise sanitária de enormes proporções, especialmente em Nova York, uma das regiões norte-americanas mais duramente atingidas no início da emergência. Nesse cenário, os hospitais precisavam ampliar suas equipes para atender ao grande número de pacientes, inclusive os que necessitavam de cuidados intensivos.
Assim, Andrea finalmente recebeu a oportunidade de trabalhar diretamente na assistência hospitalar. Após anos tentando conquistar uma vaga clínica, ela conseguiu um contrato temporário em um hospital da região de Nova York, atuando na assistência intensiva durante a pandemia.
A oportunidade permitiu que ela demonstrasse suas competências em um ambiente no qual o conhecimento técnico, a preparação e o cuidado com os pacientes eram essenciais.
A primeira enfermeira registrada cadeirante de Nova York
Com isso, Andrea ficou conhecida como a primeira enfermeira registrada usuária de cadeira de rodas a exercer a profissão no estado de Nova York, conforme sua biografia profissional e publicações da área.
A conquista representou muito mais do que uma realização individual. Ela evidenciou que ninguém deve descartar, com base em suposições, a presença de uma pessoa com deficiência em uma equipe de saúde. A avaliação precisa considerar as tarefas reais do cargo, as competências individuais, as condições de acessibilidade e as adaptações razoáveis que a equipe possa implementar.
Ao mesmo tempo, a pandemia, que trouxe sofrimento e perdas para milhões de famílias, acabou criando uma oportunidade profissional que Andrea buscava havia anos. Isso não apaga as rejeições anteriores. Pelo contrário, torna ainda mais importante perguntar por que uma profissional qualificada precisou enfrentar tantas negativas antes de ter a chance de demonstrar seu trabalho.
O encontro que confirmou o sentido de sua escolha
Entre as experiências que marcaram sua trajetória, Andrea compartilhou uma história vivida durante a formação em enfermagem.
Uma paciente que havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) estava desanimada, recusava cuidados e não queria participar da fisioterapia. Como a mulher havia desenvolvido uma deficiência, parecia ter perdido a esperança de recuperar parte de sua autonomia. Então, uma colega pediu que Andrea conversasse com ela.
Quando Andrea entrou no quarto em sua cadeira de rodas, percebeu que a paciente reagiu emocionalmente ao vê-la. A mulher começou a chorar porque, até aquele momento, não havia visto outras pessoas com deficiência naquele ambiente hospitalar ocupando uma posição diferente da de paciente.
Assim, a presença de Andrea mostrou àquela mulher uma possibilidade que talvez ainda não conseguisse imaginar: continuar vivendo com uma deficiência e construir uma vida para além do período de internação. Segundo o relato publicado pela AACN, a paciente passou a aceitar os cuidados e se preparou para a terapia após a conversa.
Para Andrea, o episódio também mudou a forma como ela enxergava o trabalho. Ela percebeu que sua atuação profissional poderia produzir um efeito que ultrapassava os procedimentos clínicos, pois sua própria presença ajudava a ampliar a perspectiva de alguém que enfrentava uma mudança profunda na vida.
Representatividade sem peso de superação
Esse é um dos aspectos mais importantes de sua história. Uma profissional com deficiência não precisa transformar cada atendimento em uma demonstração de superação. Entretanto, quando a representatividade acontece de maneira natural, ela pode ajudar pacientes a perceberem que uma deficiência não elimina automaticamente a possibilidade de construir novos caminhos.
The Seated Nurse: uma voz pela inclusão
A experiência de Andrea no mercado de trabalho impulsionou sua atuação como defensora dos direitos das pessoas com deficiência. Por meio de sua presença digital, sob o nome The Seated Nurse, ela passou a compartilhar experiências, questionar preconceitos e estimular discussões sobre a participação de profissionais com deficiência na saúde.
Uma mensagem que vai além da enfermagem
Sua mensagem não se limita à enfermagem. Andrea chama a atenção para a necessidade de avaliar cada pessoa individualmente, sem presumir incapacidade apenas porque ela possui uma deficiência visível ou utiliza um dispositivo de mobilidade.
Ela também defende:
- ambientes profissionais acessíveis;
- formação adequada sobre inclusão;
- conhecimento das adaptações que permitem a participação de pessoas com diferentes necessidades.
Oportunidade para demonstrar competência
Em entrevista à associação de enfermagem ANA-Illinois, Andrea ressaltou a importância de oferecer às pessoas a oportunidade de demonstrar o que conseguem fazer, sem partir de conclusões antecipadas sobre suas limitações. Essa perspectiva é especialmente relevante em profissões nas quais a segurança e a competência técnica são fundamentais.
Inclusão não significa ignorar requisitos profissionais. Na prática, significa avaliar esses requisitos de forma objetiva, verificar as competências da pessoa e considerar os recursos que podem tornar o trabalho possível. A deficiência, por si só, não responde a todas essas perguntas.
Reconhecimento e conquistas
Ao longo de sua trajetória, Andrea recebeu reconhecimentos por seu trabalho profissional e por sua atuação em defesa da inclusão.
Principais prêmios e títulos
Entre os principais destaques estão:
- 2015 — Ms. Wheelchair New York: recebeu o título e usou a plataforma para promover a acessibilidade e os direitos das pessoas com deficiência.
- 2020 — Craig H. Neilsen Visionary Prize: ganhou reconhecimento por seu trabalho de defesa dos direitos das pessoas com lesão medular e deficiência.
- 2021 — Person of the Year, da revista New Mobility: recebeu o reconhecimento por sua trajetória e por sua contribuição à comunidade de pessoas com deficiência.
Comunicação e o projeto The Seated Position
Além disso, Andrea participou de iniciativas de comunicação e campanhas relacionadas à saúde, à acessibilidade e à atividade física. Sua atuação passou a combinar experiência profissional, comunicação pública e defesa de mudanças estruturais que ampliem as oportunidades para pessoas com deficiência.
Em 2021, ela também apresentou o projeto The Seated Position, uma iniciativa voltada à conscientização sobre deficiência, educação, trabalho e adaptações profissionais. Mais do que acumular prêmios, Andrea passou a usar a visibilidade conquistada para questionar práticas que dificultam o acesso de pessoas com deficiência à formação e ao mercado de trabalho.
O que a história de Andrea Dalzell ensina às empresas?
A trajetória da enfermeira oferece reflexões importantes para organizações que desejam construir ambientes profissionais mais inclusivos.
1. Não confunda deficiência com incapacidade
Uma cadeira de rodas informa algo sobre a mobilidade de uma pessoa. Ela não determina, isoladamente, seu conhecimento, sua inteligência, sua capacidade de tomar decisões ou sua competência profissional. Por isso, as empresas devem avaliar cada trabalhador por suas qualificações e pelas exigências efetivas da função.
2. Acessibilidade também é uma questão de gestão
Não basta declarar que uma empresa valoriza a diversidade. Para ir além do discurso, vale verificar se estes pontos permitem a participação de profissionais com deficiência:
- ambientes;
- equipamentos;
- processos seletivos;
- sistemas;
- rotinas.
Acessibilidade deve fazer parte do planejamento e não pode depender exclusivamente da iniciativa individual de quem encontra uma barreira.
3. Adaptações razoáveis podem ampliar oportunidades
Antes de concluir que alguém não pode exercer determinada função, é importante analisar quais recursos, tecnologias, ajustes e formas de organização podem viabilizar o trabalho. No caso de Andrea, era preciso confrontar as dúvidas sobre a atuação clínica com as exigências concretas da profissão, e não apenas com a presença da cadeira de rodas.
4. Representatividade transforma perspectivas
Quando uma pessoa com deficiência ocupa um espaço profissional do qual historicamente esteve afastada, sua presença pode modificar a maneira como colegas, gestores, pacientes e estudantes enxergam a deficiência. Isso não significa que uma única pessoa deva representar toda uma comunidade. Significa, sim, reconhecer que diferentes experiências humanas podem enriquecer os ambientes profissionais.
5. Inclusão não deve depender de uma crise
A pandemia abriu uma porta para Andrea, mas a contratação de profissionais com deficiência não deveria depender de situações excepcionais, como uma emergência sanitária ou uma escassez de trabalhadores. Uma política de inclusão consistente precisa funcionar também nos períodos de normalidade, com critérios objetivos de seleção, acessibilidade e oportunidades reais de desenvolvimento profissional.
A lição de Andrea Dalzell: a oportunidade precisa vir antes do preconceito
A história de Andrea Dalzell não é apenas sobre uma mulher que superou obstáculos para se tornar enfermeira. Ela também mostra as barreiras criadas por pessoas e instituições que, mesmo diante de uma profissional qualificada, deixaram a cadeira de rodas pesar mais do que suas competências.
Andrea precisou de 76 entrevistas para conseguir a oportunidade de trabalhar diretamente com pacientes. Esse número ajuda a dimensionar o desafio, mas também levanta uma pergunta importante: quantas pessoas qualificadas desistem de seus objetivos porque nunca recebem a oportunidade que Andrea finalmente conquistou?
A resposta exige mudanças que vão além da motivação individual. Por isso, é necessário:
- preparar as instituições de ensino;
- rever os processos seletivos;
- promover a acessibilidade;
- combater o preconceito que associa deficiência a incapacidade.
Andrea continua sendo uma referência justamente porque transformou uma experiência pessoal em uma discussão mais ampla sobre direitos, trabalho e participação social. Sua trajetória também deixa uma mensagem para quem vive com uma deficiência e deseja construir uma carreira: as barreiras que aparecem no caminho não definem, por si só, o limite das suas possibilidades.
Além disso, sua história deixa uma mensagem igualmente importante para empregadores, gestores e profissionais de recursos humanos: antes de decidir que alguém não é capaz, é preciso oferecer condições justas para que essa pessoa demonstre suas competências.
Afinal, uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que apenas admira pessoas com deficiência quando elas vencem obstáculos extraordinários. É aquela que deixa de criar obstáculos desnecessários para que elas possam estudar, trabalhar, participar e construir suas próprias histórias.
Perguntas frequentes sobre Andrea Dalzell
Quem é Andrea Dalzell?
Andrea Dalzell é uma enfermeira norte-americana, ativista dos direitos das pessoas com deficiência e conhecida internacionalmente como The Seated Nurse. Ela nasceu e cresceu no Brooklyn, em Nova York, e utiliza cadeira de rodas em tempo integral desde os 12 anos.
O que significa The Seated Nurse?
The Seated Nurse é o nome sob o qual Andrea Dalzell compartilha sua experiência nas redes digitais. A expressão se traduz como “A Enfermeira Sentada”.
O que é mielite transversa?
A mielite transversa é uma condição inflamatória que afeta a medula espinhal e pode provocar dor, fraqueza muscular, alterações de sensibilidade e paralisia. Andrea Dalzell recebeu esse diagnóstico aos cinco anos de idade.
Quantas entrevistas de emprego Andrea Dalzell fez antes de conseguir uma vaga clínica?
Andrea participou de 76 entrevistas para vagas de enfermagem clínica e ouviu um não em todas elas, segundo relatos publicados por ela e por organizações da área de enfermagem.
Como a pandemia de Covid-19 abriu uma oportunidade para Andrea Dalzell?
Em 2020, os hospitais de Nova York precisaram ampliar suas equipes para atender ao grande número de pacientes. Nesse cenário, Andrea conseguiu um contrato temporário em um hospital da região e finalmente trabalhou diretamente na assistência, inclusive em cuidados intensivos.
O que as empresas podem aprender com a história de Andrea Dalzell?
As empresas aprendem a não confundir deficiência com incapacidade, a tratar a acessibilidade como questão de gestão, a considerar adaptações razoáveis, a valorizar a representatividade e a manter políticas de inclusão também em períodos de normalidade.