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A reciclagem dos profissionais da saúde em relação as PCDs

Profissional de saúde conversa com paciente cadeirante durante atendimento humanizado, destacando a importância da escuta ativa e da individualização do cuidado à pessoa com deficiência.

A padronização excessiva dos profissionais da saúde com pessoas com deficiência

Leitura estimada: 12 minutos

A formação dos profissionais da saúde é baseada em protocolos, diretrizes e procedimentos que buscam garantir segurança e qualidade assistencial.

No entanto, existe um problema que ainda passa despercebido em muitos ambientes hospitalares, clínicas e centros de reabilitação: a aplicação rígida desses protocolos pode comprometer a qualidade do atendimento à pessoa com deficiência.

Na prática, muitos profissionais acabam tratando a deficiência como uma categoria homogênea.

Consequentemente, presumem que todos os pacientes apresentam as mesmas limitações, necessidades e percepções corporais. O resultado é um atendimento tecnicamente correto no papel, mas inadequado na realidade vivida pelo paciente.

Neste artigo, compartilho experiências pessoais que evidenciam por que a individualização do cuidado, a escuta ativa e a educação continuada em saúde precisam ocupar um espaço muito maior na formação e na atuação dos profissionais.


Sumário


Quando o protocolo ignorou o paciente

Certa vez, durante uma internação para a realização de um procedimento cirúrgico, a equipe de enfermagem seguia uma prescrição padrão para o esvaziamento vesical por meio de sondagem intermitente. O procedimento deveria ocorrer a cada quatro horas.

Em determinado momento, cerca de uma hora após o último esvaziamento, comecei a sentir claramente que minha bexiga estava cheia. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Conhecia meu corpo, reconhecia os sinais e sabia que precisava realizar o procedimento novamente.

Por isso, chamei a equipe de enfermagem e solicitei a sondagem.

A resposta foi imediata: não seria possível, porque a prescrição médica estabelecia intervalos de quatro em quatro horas.

Expliquei que estava sentindo necessidade. Expliquei que precisava realizar o procedimento antes do horário previsto. Além disso, deixei claro que conhecia meu corpo e que aquela situação exigia uma adaptação.

Ainda assim, a resposta continuou sendo baseada exclusivamente no protocolo.

Foi necessário insistir, solicitar a presença da chefia de enfermagem e explicar repetidamente que o problema não era a prescrição em si, mas a interpretação rígida que estava sendo feita dela.

Esse episódio revelou algo preocupante. Muitos profissionais presumem que toda pessoa com deficiência, especialmente aquela com lesão medular, não possui sensibilidade suficiente para perceber necessidades fisiológicas. Entretanto, essa generalização ignora uma realidade básica: pessoas com deficiência não são iguais.

Existem diferentes níveis de lesão, diferentes respostas corporais, diferentes graus de sensibilidade e diferentes formas de percepção do próprio corpo.

O protocolo previa quatro horas.

Meu corpo precisava de uma hora.

Nesse caso específico, quem tinha a informação mais importante não era o prontuário. Era o paciente.

Quando a técnica falou mais alto que o desconforto

Em outra ocasião, durante uma sessão de fisioterapia, vivi uma situação semelhante.

Enquanto a profissional realizava determinado manuseio, minha perna permaneceu dobrada por um período prolongado. Pouco tempo depois, comecei a sentir desconforto e dor nas costas.

Solicitei que ela esticasse minha perna.

A resposta foi que eu deveria esperar mais um pouco porque o próximo movimento do protocolo terapêutico seria realizado com a perna naquela posição.

Novamente expliquei que estava sentindo dor.

Mais uma vez, a resposta priorizou a sequência planejada do procedimento.

O problema não era a falta de conhecimento técnico. O problema era a ausência de escuta.

Se eu tivesse condições de esticar minha perna sozinho naquele momento, eu o teria feito imediatamente. A solicitação não era uma preferência. Era uma necessidade.

A profissional conhecia a técnica.

Eu conhecia a dor que estava sentindo.

Quando a técnica passa a ser considerada mais importante do que a experiência relatada pelo paciente, o cuidado deixa de ser centrado na pessoa e passa a ser centrado no procedimento.

Essa diferença parece pequena. Contudo, ela muda completamente a qualidade da assistência.

O mito de que toda pessoa com deficiência é igual

Uma das consequências mais perigosas da formação insuficiente sobre deficiência é a criação de estereótipos clínicos.

Muitos profissionais aprendem conceitos gerais sobre lesão medular, paralisia cerebral, amputações, doenças neuromusculares e outras condições. Porém, frequentemente não têm contato suficiente com a diversidade existente dentro desses grupos.

Como consequência, cria-se uma lógica simplificada:

“Se dois pacientes possuem a mesma deficiência, eles devem ter as mesmas necessidades.”

Essa lógica é equivocada.

Duas pessoas com lesão medular podem apresentar níveis completamente diferentes de independência funcional.

Da mesma forma, duas pessoas que utilizam cadeira de rodas podem possuir capacidades motoras, níveis de sensibilidade e necessidades clínicas totalmente distintas.

Além disso, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem responder de formas opostas ao mesmo procedimento.

A deficiência não define integralmente a pessoa.

Ela é apenas uma das características que compõem sua experiência de vida.

Quando o profissional enxerga apenas a deficiência, deixa de enxergar o indivíduo.

O que a formação acadêmica ainda não ensina suficientemente

Grande parte dos cursos da área da saúde aborda a deficiência de forma limitada.

Os estudantes aprendem a identificar diagnósticos.

Aprendem protocolos.

Aprendem procedimentos.

Mas nem sempre aprendem a ouvir pessoas com deficiência falando sobre suas próprias experiências.

Nem sempre aprendem a compreender as barreiras enfrentadas durante internações, consultas e tratamentos.

Nem sempre aprendem que a experiência do paciente também é uma fonte legítima de conhecimento clínico.

Essa lacuna educacional acompanha muitos profissionais ao longo da carreira.

Educação continuada não é opcional

A saúde é uma área em constante transformação.

Novos tratamentos surgem.

Novas evidências científicas são publicadas.

Novas tecnologias são incorporadas à prática clínica.

Portanto, se os profissionais precisam se atualizar sobre medicamentos, equipamentos e protocolos, também precisam se atualizar sobre pessoas.

A deficiência não pode continuar sendo tratada como um tema secundário na educação continuada.

Cursos, palestras, treinamentos e capacitações devem abordar questões práticas relacionadas ao atendimento humanizado, à comunicação, à autonomia e à individualização do cuidado.

Profissionais que nunca conviveram com pessoas com deficiência frequentemente carregam conceitos equivocados sem sequer perceber.

Muitas vezes, esses conceitos não nascem de preconceito.

Na verdade, nascem da falta de contato, da falta de informação e da falta de atualização.

A educação continuada tem justamente a função de corrigir essas lacunas.

A escuta clínica precisa voltar ao centro do cuidado

Existe uma pergunta simples que todo profissional deveria fazer durante um atendimento:

“O que esse paciente está tentando me dizer sobre o próprio corpo?”

Essa pergunta pode evitar inúmeros erros.

A experiência do paciente não substitui o conhecimento técnico.

Por outro lado, o conhecimento técnico também não substitui a experiência do paciente.

O melhor cuidado acontece quando essas duas formas de conhecimento trabalham juntas.

O profissional possui formação científica.

O paciente possui experiência vivida.

Ignorar qualquer uma dessas partes enfraquece a qualidade da assistência.

Especialmente no atendimento às pessoas com deficiência, a escuta ativa não deve ser considerada um gesto de gentileza.

Ela deve ser considerada uma competência clínica.

Protocolos devem orientar, não aprisionar

Protocolos são fundamentais.

Eles salvam vidas.

Organizam processos.

Reduzem falhas.

Contudo, nenhum protocolo consegue prever todas as particularidades humanas.

Por esse motivo, sua função é orientar decisões, não eliminar o raciocínio crítico.

Quando um profissional deixa de analisar o contexto individual para seguir rigidamente um procedimento, o protocolo deixa de cumprir seu objetivo original.

A verdadeira excelência assistencial não está em seguir regras mecanicamente.

Está em saber quando e como adaptá-las de forma segura.

Essa flexibilidade exige conhecimento técnico, experiência e sensibilidade.

Acima de tudo, exige humildade para reconhecer que o paciente também possui informações relevantes sobre sua própria condição.

O futuro da assistência passa pela individualização

A saúde caminha cada vez mais para modelos personalizados de cuidado.

Esse movimento não pode ignorar as pessoas com deficiência.

A individualização do atendimento não deve ser um diferencial oferecido por alguns profissionais.

Ela deve ser um compromisso ético de toda a equipe de saúde.

Isso significa abandonar generalizações.

Significa ouvir mais, questionar pressuposto, reconhecer que deficiência não é sinônimo de incapacidade e significa compreender que ninguém conhece melhor as necessidades cotidianas de uma pessoa do que ela própria.

Conclusão

A desconstrução da padronização excessiva no atendimento às pessoas com deficiência não representa um ataque aos protocolos.

Protocolos são ferramentas.

Pessoas são seres humanos.

Quando a ferramenta passa a ser mais importante do que a pessoa, o cuidado perde sua essência.

Ao longo da minha trajetória, percebi que muitos dos problemas enfrentados por pessoas com deficiência nos serviços de saúde não surgem por falta de boa vontade dos profissionais.

Mas sim porque a formação acadêmica ainda dedica pouco espaço ao entendimento profundo das diferentes realidades vividas por esse público.

Por isso, acredito que a educação continuada, as capacitações frequentes e o contato direto com as experiências das pessoas com deficiência são caminhos indispensáveis para transformar a assistência em algo verdadeiramente humano, individualizado e eficaz.

“Os protocolos devem orientar o cuidado, mas nunca substituir a escuta do paciente. Nenhuma deficiência elimina a individualidade de uma pessoa.”
— Denardo, jornalista e palestrante


Perguntas frequentes sobre atendimento à pessoa com deficiência

1. Toda pessoa com lesão medular perde completamente a sensibilidade corporal?

Não. O nível e a extensão da lesão influenciam diretamente as funções preservadas.

2. Protocolos hospitalares podem ser flexibilizados?

Sim. Quando exista avaliação clínica adequada e justificativa técnica.

3. O paciente pode conhecer sua condição melhor do que o profissional?

Em muitos aspectos da experiência cotidiana, sim. O conhecimento clínico e a experiência vivida são complementares.

4. Por que a escuta ativa é importante no atendimento à pessoa com deficiência?

Porque permite compreender necessidades individuais que não aparecem em exames ou protocolos.

5. O que é atendimento centrado na pessoa?

É um modelo de cuidado que considera valores, preferências, experiências e objetivos do paciente.

6. A formação dos profissionais de saúde aborda suficientemente a deficiência?

Ainda existem lacunas importantes, especialmente em aspectos relacionados à autonomia, comunicação e experiência vivida.

7. Como a educação continuada pode melhorar a assistência?

Atualizando conhecimentos, corrigindo conceitos equivocados e promovendo práticas mais humanizadas.

8. Pessoas com a mesma deficiência possuem as mesmas necessidades?

Não. Cada pessoa apresenta características, capacidades e demandas próprias.

9. Qual é o principal erro cometido no atendimento às pessoas com deficiência?

Presumir que a deficiência define integralmente a pessoa e suas necessidades.

10. O que gestores de saúde podem fazer para melhorar esse cenário?

Investir em capacitações permanentes, ouvir usuários dos serviços e incentivar práticas centradas no paciente.

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Com carinho, Denardo.

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